Ferreiros

Família Antunes, Ima, Jarmelo Irmãos de ferro «Não fazemos nada de especial, não somos grande coisa», referem os irmãos Antunes, da Ima, Jarmelo. A rusticidade desta família combina com o genuíno das suas palavras, com a simplicidade das suas maneiras. Toda a vida foram ferreiros, pouco sabem de outra arte que não a de trabalhar o ferro. «Já meu pai assim era», esclarece o Orlindo, o mais novo e mais acanhado nas palavras. «Deixámos a escola e viemos logo para a oficina», completa o Duarte, mais velho e muito mais dado a tagarelices. A infância não lhes deu azo a muitos sonhos, pois cedo ficaram órfãos, com mais cinco irmãos por criar. A idade adulta pouco mais lhes permitiu, a ligação à família e à terra, que tão bem conheciam porque não conheciam outra, não deixou muitas ilusões. Ficaram solteiros os dois, casaram somente com o amanho das terras, com o frio do ferro, com a solidão da saudade. Não é que não tivessem olho para as meninas, mas «foi andando, andando, e quando chegou a altura certa já não pode ser», conta o Duarte. É que lhes apareceu em casa a irmã, com três filhos pequenos, acabada de enviuvar. Que poderiam fazer, recordam. Sacrificar o sonho, manobrar a felicidade e moldá-la que nem o ferro mais duro para que a vida desse a volta acertada. Ficaram por casa, apoucaram-se com o trabalho para a família. Um companhia do outro, dias a fio numa terra cheia de vazio. Nunca se lhes ouviu um lamento, pouco se pressente de tristeza na sua voz. Pelo contrário. Conta-se que estes irmãos eram a companhia escolhida da criançada da aldeia, que fazia romarias à oficina dos irmãos Orlindo e Duarte só para os ver trabalhar e ouvir contar histórias do imaginário popular, que o Duarte sempre teve jeito para a fantasia. Ainda há quem se lembre de passar horas a fio à conversa com eles, falar de ilusões, traquinices, e apanhar carradas de "moreno" na cabeça. O moreno, como lhe chamam na Ima, é o pó da forja, uma espécie de caspa, mas para o negro, que morenava quem se achegasse. Nessa altura a forja ainda era tocada a fole, «e ao sim dos assobios dos irmãos Antunes, eles assobiavam tardes inteiras, entre o ruído das pedras que afiavam as ferramentas e o roncar do motor que as movia». Mas isto era no inverno, que no Verão havia que ir guardar as vacas. Ainda assim ouvia-se ao longe o barulho das ferramentas contra a pedra de amolar e «dependendo do vento também se ouvia mais ou menos o velho motor a gasóleo». Orlindo e Duarte sorriem hoje, quando já somam 63 e 65 anos, respectivamente, ao recordar os tempos em que havia pequenada na aldeia, e «sempre a importunar o trabalho da gente». Mas «gostávamos muito que viessem para aqui fazer-nos companhia, era só rir com os garotos», lembra o Duarte. Quando veio a luz foi uma romagem de todos da terra à oficina, para ver o aparelho de soldar. É que os ferreiros passavam muitas horas a "caldear", mas com este aparelho era num abrir e fechar de olhos que se fazia a união das peças. No dia seguinte, eram novos e velhos com olheiras «de tanta luz terem visto». Agora pouca gente visita a velha e escura oficina. Os irmãos estão a envelhecer, acomodados novamente a um futuro solitário, e, sempre, à companhia um do outro. Fazem as suas pedoas e roçadeiras, que são a sua especialidade. Antes, faziam muito mais instrumentos, sempre alfaias agrícolas, hoje não que não há procura. «Andamos nisto enquanto a gente puder ir fazendo alguma coisa», afirma o Duarte, por muito ou pouco tempo, quem sabe. Sabe-o a sorte, cega, que pouco quer com eles. Ainda bem, que a vida assim tem muito mais legitimidade e valor.

Maria João Silva (in Terras da beira) 01/2/2001