A Árvore e o Fruto
A ÁRVORE E O FRUTO
Era uma vez, não se sabe bem onde, existia uma terra onde cada pessoa tinha uma árvore que todos os anos dava frutos azedos.
Todas as árvores davam frutos amargos , fossem eles laranjas, ameixas, maçãs, peras ou nêsperas. E talvez porque os frutos eram assim tão amargosos, todos os donos dessas árvores viviam com cara azeda. Todos com ar aborrecido e carrancudo dizendo apenas poucas palavras e, mesmo assim tão azedas comos os frutos das árvores que eram suas.
Viveram assim muitos anos.
Sempre que uma pessoa chegava à idade de ter uma árvore, mais ou menos quando começava a saber falar direito, escolhia então a semente do fruto de qualquer árvore mas, porque todos eles eram amargos, lá aparecia sempre mais uma árvore a dar frutos azedos.

Aconteceu no entanto, que nessa terra perdida, lá muito longe, um garoto que estava a chegar à idade de plantar a sua árvore, apercebendo-se de que em breve ele, que era alegre e sorridente, começaria a andar também, como todos os outros, aborrecido e de bochechas caídas, resolveu descobrir uma maneira de mudar a sua sorte.
Em vez de escolher a semente do fruto de uma árvore apenas, juntou uma semente do fruto de todas as árvores e , metendo-as num saco vermelho , em forma de coração sorridente, colocou o saco numa noite de lua cheia , quando a lua parece sorrir sobre todo o mundo, debaixo da sua almofada e sonhou apenas com coisas doces e bonitas.
Na manhã seguinte correu ao seu quintal a fazer um buraco , abriu o saco das sementes e disse lá para dentro "Eu quero frutos doces, eu quero frutos doces, eu quero frutos doces"; fechou novamente o saco e meteu-o dentro do buraco que depois voltou a tapar com terra.
Todas noites, a seguir, vinha regar o sítio onde estava o saco das sementes e, enquanto regava, dizia devagar as palavras mais doces que encontrava no dicionário.
Ao fim de algum tempo, furando o chão, surgiu o tronco ainda frágil e pequeno de uma árvore que, parecendo igual às outras , era no entanto muito , muito diferente.
Quando , algum tempo mais tarde a árvore cresceu e chegou à altura de dar os primeiros frutos, com espanto de todas as pessoas , os frutos que apareceram tinham a forma de corações vermelhinhos e eram doces como chupa-chupas , tendo até, em vez da haste, uns pauzinhos brancos de agarrar.
Todos ficaram admirados e, ora pedindo, ora às escondidas e com vergonha, quando passavam por aquela árvore, iam tirando e provando aqueles frutos em forma de coração doce.
Mais esquisito ainda era que, quando provavam aqueles frutos , a cara das pessoas ia deixando de estar aborrecida e , aos poucos começavam a aprender a sorrir e a dizer coisas agradáveis , deixando que a alegria e o riso passassem a habitar os seus dias.
E porque eles iam ficando alegres e felizes, também os frutos das suas árvores foram ficando doces, embora nenhum tão doce, saboroso e bonito como os frutos da árvore-coração que ainda hoje se pode ver plantada nas nuvens quando o sol se esconde e por um momento , a lua cheia, aparece no céu com um sorriso grande e doce sobre o mundo , saudando a noite que aí vem.