Sentado na ombreira da porta, com a cabeça entre os ombros, perguntava por si querendo saber que tamanho tinha, qual a sua importância, desasado num apagamento em que se revia para lá de toda a eficácia que a sua circunstância tinha, reconhecida socialmente no seu mester. Na cogitação o tempo passara-lhe por cima e o sol, mais a pino, projectava agora a sua sombra alongada pelo chão . Deteve-se nela vendo-se imenso e pensou o que faria se fosse assim grande, e em como a sua vida se alteraria em afirmação e porte, nas passadas largas que daria e na rapidez com que atingiria um outro destino para além da pequenez que os seus pés lhes permitiam. O propósito que lhe fez latir as têmporas avivou-lhe a vontade e subiu ao monte onde sabia habitar Jezebua, tida por feiticeira e bruxa mas que ele sempre vira como uma velha encurvada e turva ciscando raízes e ervas pelos matos. O casebre escuro estava alumiado por uma lamparina de azeite que fazia tremer as sombras reproduzindo com fidelidade a nervura que lhe ia nos braços e o tremor que lhe secava a garganta. Dito ao que ía , a velha garantiu a possibilidade do que desejava na condição simples de ele se não arrepender e não desejar, nunca, um retorno à forma de que se despedira. Aceite o trato e mascada a raíz que ela lhe ofereceu , saiu de novo para a rua reparando que a sua sombra havia desaparecido, consumida pelo gigantismo do seu porte, e empreendeu decidido botar os pés no caminho galgando a terra e vendo o mundo enquanto o sol lá no cimo circunvalava as nuvens no seu trajecto de sempre. Afastado de onde partira enchia os olhos de montanhas, mares e gente num pasmo maior ainda ao de quem o via, não se cansando de ir sempre para mais longe na procura de um lugar onde coubesse. A estranheza do cansaço, ao fim da tarde, fê-lo suspeitar da grandeza que se supunha e tombado na superficie plana da fonte de que se aproximara para matar a sede , incrédulo, verificou que minguara até um tamanhico irrisório pouco maior que o do talo de uma couve percebendo o embuste do seu desejo. Tinha pretendido ser do tamanho da sua sombra e tal lhe fora concedido mas na sofreguidão do desejo esquecera que ao fim do dia a ausência de um sol que o alumiasse lhe traria a invisibilidade de um desaparecimento precoce. Chorou então a audácia do seu logro e desejou ardentemente ser apenas quem era , da medida de que se conseguira fazer durante os anos mas lembrou a condição que firmara e viu nela o peso incontornável de uma predito destino, agora sucumbido às intempéries das variações de um tamanho comandado pelos caprichos do sol. Chorou apenas e desejou também, indiferente a tudo o que a sua curiosidade lhe ditara, ser apenas quem era na irrepetibilidade originária das suas posses , soluçando, mais que o arrependimento, o propósito firme de ser grande e exacto tanto quanto o poderia ser por si, fazendo dos outros o sol da sua sombra. A lua comoveu-se. Aquela visão de um homem tendido sobre si mesmo, a declarar-se na transparência e a revelar-se na autenticidade era portadora de um sortilégio tão grande que a luz cheia de um luar redondo colocou de novo no coração daquele que de si mesmo se despedia todo o mistério que a terra guarda enquanto o mundo dorme e a faz transformar a semente em pão. E foi já com uma alegria imensa que o dia se fez manhã, acordando um homem que na ombreira da sua casa acenava aquela velha , apenas velha, que ciscava pelos matos, raízes e bagas silvestres, e achando-a parecida com uma outra, Jezebua, que em tempos lhe havia desassossegado os passos e que mais não era que o clarão da vertigem que adormece por vezes quem quer ser maior que o seu tamnho ou quem quer ser do tamnho quie quer, antes de tempo... |
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