Era uma vez há muitos anos, talvez até ainda antes de o tempo se contar em dias e em revezes, quando as pessoas viviam em povoados e aprendiam o poder de comunicar . Habitava num monte um povo minúsculo de gente quase invisível e de poucas falas e havia construído as suas casas em redor de um marco de pedra anguloso apontado para o céu. A cada fez. um, pelo mágico do reino que ali se dirigia todas as manhãs, eram distribuídas ao nascer do dia 100 palavras . Nem uma mais nem uma menos. Por isso eles apenas diziam coisas acertadas , directas e inteligíveis. A vida corria com a exactidão com que as palavras ,iguais para todos, eram distribuídas como uma ração preciosa. Mas houve alguém que se revoltou , num dia incomum... Invejando a forma com que muitos faziam render os seus vocábulos e , ainda mais, o que conseguiam obter com eles, o inconformado começou a engendrar um plano de revolta mas, lamentavelmente tinha apenas 100 palavras por dia para se revoltar. Nem uma mais nem uma menos. No fim de muito pensar , e pensar sem palavras rendia muito , descobriu que se escrevesse as palavras da revolta ,elas não valiam mais mas duravam mais tempo. Afinal vale mais aquilo que dura mais tempo ... E assim Começou a grafitar nas paredes o desacordo de as palavras serem iguais para todos e em tal número. E incitava à revolta, convidando à recusa em utilizar as palavras distribuídas. Afinal, pensava ele, que se todos poupassem as suas palavras e se as pusessem em comum , poderiam como um todo ter muitas mais para usar... Ao fim de 3 dias e depois de ter regimentado alguns habitantes do reino tinha ele já mais de 1500 palavras e então resolveu fazer um manifesto. Mas, embora tivesse 1500 palavras tinha muitas repetidas pois que apenas 100 eram diferentes . A solução seria fazer um manifesto curto mas repetido muitas vezes. Ao fim de um tempo o conjunto dos seguidores somava-se e , com ele , o poder daquelas palavras repetidas sincopadamente como as horas , na torre do campanário. Alertado pelo crescente alarido o mágico do reino começou a levar a sério aquele movimento sonoro e resolveu tomar uma atitude. Daria de futuro apenas metade das palavras a cada um. E se o pensou melhor o fez. Surpreendidos pelo emagrecimento da ração comunicante , os habitantes tomaram-na consigo e lá abalaram vergados ao peso de uma autoridade incontornável. Alguns deles chegaram a semear as palavras nos campos mas ou porque a terra era avara ou porque a semente de má qualidade , nenhuma colheita tiveram. No segredo do anonimato o contestatário magicava uma resposta. Se as palavras eram menos teriam de ser gritadas mais alto... E assim fizeram . Ás horas estabelecidas , o cortejo percorria as ruas zonzando e vozeando aquela prosa irreverente de quererem mais palavras para lá das palavras. Cada dia que passava a multidão aumentava e com ela a força do som que se expendia. O mágico atordoado via a população unir-se em volta do pouco que tinha e aquelas 50 palavras distribuídas tinham afinal o peso das palavras únicas , como um tiro de canhão . A solução era apenas uma...Dar-lhes o que queriam e assim se decidiu a abrir os cofres do reino e a deixar que todas as vogais , todas as consoantes e todos os acentos fossem distribuídos sem reserva e sem critério. E foi desde esse dia , para espanto do mágico e desdita do revoltoso , que mais ninguém foi capaz de dizer ou de entender as mesmas coisas. Deixou de haver cortejos pelas ruas do país e possuídos de tantas palavras ninguém mais se entendeu. As palavras, essas foram aos poucos perdendo o significado e diz-se que esse país distante , foi definhando até ter desaparecido , precisamente pela abundância das palavras inundado o corações das gentes e esvaziado o sentido dos gestos... |
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