O rio levava água por cima das poldres e era forçoso atravessá-lo que se dizia que tudo o que interessava e era urgente estava da outra margem numa espera breve de oportunidade única. Do lado de cá, dois homens olhavam as águas sabedores do que se dizia e de como a rapidez, igual para ambos, se teria de transformar em acto solutivo que os fizesse galgar a força da corrente sem delongas que deitassem a perder tudo o que desejavam. Um deles, numa definição rápida das circunstâncias , deixou de parte a estratégia do salto; não fez fé na força das suas braçadas nem na firmeza das pedras de cocuruto visível mas numa corrida acompanhou a descida das águas e mal viu que a travessia podia ser feita a pé , meteu-se pelo rio a dentro e alcançou a outra margem. O outro deixara-se ficar no mesmo lugar , absorto na alvura dos seus pensamentos , mexendo com uma cana os limos bambos que lá no fundo persistiam agarrados ás pedras pedras soltas e, devagar, subindo o ribeiro , sempre subindo, alcançou a nascente que não era mais que um fio de água brotando de uma rocha. A caminhada fora longa e passara por lameiros e lodaçais vendo sempre da outra margem os mesmos pastos e baldios, as mesmas gestas e cardos, a mesma verdura e a mesma terra úbere a desangustiar-se de rebentos novos. Tomou então a água da nascente com a concha da mão e num sorvo largo lavou-se da sua sede retomando de seguida o mesmo caminho, de regresso ao lugar de onde partira. Aí chegou quando do lado de lá, na outra margem, o outro homem, afundado no infortúnio e na desolação olhava de novo as águas medindo agora a forma de volver, ele também ao lugar de origem, embora a forma que o tinha levado ali já lhe não servisse porque entretanto a corrente era mais forte e o lugar onde conseguira passar se tivesse agora tornado interdito e, descer, era agravar o acto porque a a força da enxurrada tornava mais largo e fundo o leito da ribeira. Tendo merecido do outro o segredo de um regresso eficaz , quando se juntaram ambos perguntou, o que de cá ficara ao que lá chegara, que encontrara de tão desejável na outra margem. "Nada", respondeu ele. "Na outra margem existe apenas tudo o que aqui podemos encontrar , em igual quantidade e mérito. Era logro e lenda dizer-se que por lá existiam em oferta fácil tudo o que pretenderíamos. Bem fizeste tu que esperaste sem rabuscos da fadiga que tal novidade te viesse dar". O outro ouvia atento , não argumentando, e deixando perceber ao que falara que não fora apenas inércia o ter permanecido na mesma margem , até porque nessa altura já aqueloutro percebera que , afinal, fora ele quem lhe trouxera a segurança do regresso, num lugar em que a travessia tinha a facilidade de um passo. "Sabias tu que nada havia do outro lado?!" Perguntou ele, curioso agora das razões que a sabedoria ditara ao que permanecera na mesma margem. "Não sabia mas fui sabendo, e apenas quando soube pus pés ao caminho." Respondeu tranquilo . "Mas se sabias , porque te cansaste em vão subindo a ribeira num esforço que poderias ter evitado com o poder dos teus pensamentos?!" "Nada de mais." Retorquiu ele. "Apenas tive sede e vontade de procurar uma maneira de te trazer de volta" |
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