| |  | | Caderno de apontamentos da Antiga Vila do Jarmelo | | e quadras que lhe dizem respeito. | | Em 2 de Abril de 1960 | | A professora: Maria Ana. | Jarmelo - Terra Lendária |
|
Topografia - Serra do Jarmelo. Única elevação sensível a dominar o planalto que vai da Estrela á serra da Marofa. Tem 25 km de extensão e 5 de largura. Altitude máxima de 891 metros. No alto foi erigida uma pirâmide de 39 metros, servindo de ponto geodésico de 1ª classe, donde se disfruta um vasto panorama surprendente. |  |
| | A Vila do Jarmelo - foi primitivamente edificada junto do local onde existe a igreja paroquial de S. Miguel. (Alastrou depois para nascente, sítio mais elevado, a norte da igreja de S. Pedro. Foi uma povoação importante na antiguidade, dizendo-se que fora edificada pelos Turdulos 500 anos antes de Cristo, ou talvez mais tarde pelos Godos. Tinha honras de Couto com muitos privilégios no tempo do nosso primeiro rei D. Afonso Henriques, que lhe deu foral em Coimbra após o início do seu reinado. ( Livro Preto da Cate-dral de Coimbra, folha 222). D. Manuel deu-lhe de novo foral em Santarém, no dia 1 de Junho de 1510. Em 1755 já estava desabitada, tendo apenas algumas casas, a da câmara e cadeia e mais duas moradias para dois beneficiados, além de três igrejas. Nesse ano a Ima era ainda freguesia autónoma, talvez em razão de ser das mais antigas. |
| | A vila teve quatro freguesias - Senhora da Conceição à muito extinta, Santa Maria. que se uniu à de S. Miguel e S. Pedro. A mais antiga é a de S. Miguel. Era donatário da vila e seu termo o Marquês de Arronches, Duque de Lafões. O concelho do Jarmelo que compreendia as freguesias de Argomil, Pomares, Ribeira dos Carinhos, Pínzio e Castanheira, foi suprimido por decreto de 31 de Dezembro de 1855... Nascera por má sina no Jarmelo, Pero Coelho, que foi gentil homem da corte de el-rei D. Afonso IV - o Bravo. Era filho de Estevão Coelho e de sua mulher D. Maria Mendes Petite, que foi avó de D. Eleonora d'Álvini (ou Alvim, pode ser erro de leitura de quem passou o manuscrito para letra de imprensa), esposa do Santo Condestável D. Nuno Álvares Pereira. |
 | Imensamente ricos, os pais de Pero Coelho deram ao jovem uma educação esmerada. Era deles o melhor palácio da vila no princípio do século XIV., que o vulgo diz ter sido propriedade de el-rei. Ora quis a política desse tempo que três fidalgos, um dos quais Pero Coelho, invocando especiais razões de interesse para a grei e para o rei, aconselhassem e praticassem o bárbaro assassinato de Dª. Inês de Castro na quinta das lágrimas (como se chama hoje) em Coimbra, no dia 7 de janeiro de 1355. Dois anos depois, em 1357, eram justiçados, bem mais cruelmente, dois dos assassinos. A Pero Coelho foi-lhe arrancado em vida o coração pelo peito. Ao outro era-lhe arrancado pelas costas - suplício horrível que as vítimas suportaram com extraordinária resignação, sem ao menos soltarem um grito de súplica. Rugidos apenas, de feras impotentes e enjauladas. No mesmo ano ordenou D. Pedro ( mais tarde D. Pedro I - o Justiceiro) que fosse completamente arrasada a "vila do Jarmelo", o se fez em virtude de nela ter nascido Pero Coelho. D. Fernando mandou de novo reedificá-la, mas não voltou a atingir a importância que tivera dantes. |
Os seus habitantes haviam-se instalado já nos arredores: - Quintas de Almeidinha, de Estevão Lobato (criado de D. Pedro a quem este doara terras de Pero Coelho, por Lobato ter afirmado que assistira ao casamento de D. Pedro e de D. Inês - celebrado por D. Gil, Deão da Sé da Guarda) e Monteiros, Gagos, Valdeiras, Donfins, Urgueira, Gonçalbocas e outras... Do livro do Dr Leite de Vasconcelos"De terra em terra" |
| | Parece averiguado que a família real se demorou por vezes no Jarmelo, instalando-se porventura nos paços de Estevão Coelho. Lá se organizaram caçadas esplêndidas. Por lá se namoraram o príncipe e a sua amada, galopando através das florestas quase virgens, de freixos, castanheiros, robles (carvalhos) colossais e espessas moitas, onde a caça abundava, mas tudo servindo de mero pretexto para expansões de amor. |
| Pois foi justamente para o Jarmelo que Dª. Inês foi desterrada por el-rei D. Afonso IV a conselho de Pero Coelho e outros. Ficava ali mais segura, vigiada com rigor. Depois da vingança de el-rei D. Pedro, determinou este que no Jarmelo não ficasse pedra sobre pedra - salgando-se o terreno - num gesto decisivo de maldição e extermínio.Assim procedera com Diogo Lopes Pacheco. Exceptuou-se porém uma pedra, tosca por sinal, onde os minusculos pésinhos de Inês pousavam ao montar e desmontar o seu corcel de caça, e quando após longa viagem ali quedavam ajaezadas mulinhas de transporte. Essa pedra não sofreu ao que parece as investidas dos elementos, nem a sensibilidade dos Jarmelenses permitiria que do seu lugar a arredassem. |  |
Determinou-se que ela vencesse uma tença, talvez 5 reis por dia, segundo o vulgo à memória "daquela que depois de morta foi rainha". Foi o próprio D. Pedro que ao visitar pela derradeira vez aquele lugar para ele sagrado e tão saudoso, dissera, num misto de ódio e de tristeza. | ADEUS VILA DO JARMELO ADEUS PEDRA DE MONTAR ENQUANTO O MUNDO FOR MUNDO DINHEIRO HÁS-DE GANHAR. |
| | | | | | E quando mais tarde deixou de se cobrar a tença estipulada, foi essa falta suprida pela caridade amorosa e sentimental da gente humilde das choupanas de colmo, únicas casas que então perto havia, cavando-se na benfadada pedra uma caixa de esmolas, onde os fiéis antes ou depois da missa, iam deitar alguns ceitis. Vejamos com referência ao Jarme-lo, o que diz Antero de Figueiredo no seu livro "D. Pedro e D. Inês": O edí- lio prolongou-se e não foi somente Coimbra que viu estes amantes felizes, mas várias outras terras do reino, por onde eles alardeavam a festa dos seus amores de maravilha. |
| Então o rei encolerizado e inclemente expulsou da corte para longe e ocultas terras a linda amada de seu filho D. Pedro. Então D. Pedro em mortal ânsia, não come não dorme, não pára um momento, e busca e pesquisa por toda a parte até que enfim, descobre a sua Inês. E com mil cautelas e embustes, às escondidas, vai vê-la de noite, a horas mortas, a cavalo, envolto na treva de uma longa capa negra e fala-lhe para altos eirados por cima dos muros que a encerram. E o corcel leva as ferraduras pregadas às avessas para assim despistar os seus perseguidores. Uma noite filou-a e trouxe-a por caminhos calçados de luar, à garupa do seu alazão ligeiro, que galopava alucinado por montes e vales, e foi pousá-la em recônditos paços, no meio de jardins e fontes a cantarolar em tanques de azulejos esmaltados. Lá estão ainda na terra de atouguia as ruínas destes maravilhosos paços, como no Jarmelo está o penedo a que Inês de Castro subia quando montava no seu "palafrém". |  |
| | (Trecho do mesmo autor descritivo do suplício de Pero Coelho): "E mandava que a um abrissem o peito e a outro as costas, com machados e com facas, que arrancassem os corações e lhos trouxessem numa escudela para o jantar. Então despiram o Coelho e o Gonçalves, pondo-os nus da cintura para cima. Derrubaram-nos. Já infernais golpes de faca dilaceravam Pero Coelho, quando este soerguendo-se arquejante num desafogo de incom-portável dor, com a mão esquerda crispada sobre o peito como que a arreganhar as próprias carnes, rouquejou para o algoz com a boca escancarada, os olhos enormes de aflição e de desespero, e toda a sua nobre alma repleta de infinito orgulho fidalgo, rouquejou: "Vilão, procura bem que hás-de encontrar, aqui dentro um coração forte como o de um toiro e leal como o de um cavalo". Pouco depois expirou. |
 | Mas o Jarmelo não é sequer um povoado. Ninguém habita as suas casas totalmente desmoronadas. As muralhas da antiga vila, esfarrapadas e dispersas no cimo da alta colina pedregosa e abrupta, provocam-nos a saudade que é natural sentir-se por um varão ilustre, ao atentarmos nos despojos à maneira de Hamlet. Que teria havido ali? que de batalhas e duelos se não travaram à roda e adentro de seus baluartes? que foi feito da sua legião de forjadores que já nos tempos da moirama construiram arados e temperavam adagas e alforges? que forma teriam as torres erguidas por el-rei D. Fernando -o Formoso? onde eram os salões ocupados por Dª Inês? "colo de graça" que provocara em D. Pedro o "grande desvairo de amor"? quase tudo se perdeu. E digo quase tudo porque só resta a lenda nuvem vaporosa que sempre fica pairando nos lugares santificados pelas tragédias de amor! |
Tudo se extingue porém e se subverte na onda galopante do tempo e do espaço. Modernamente o Jarmelo propria-mente dito, já não existe. Apenas sob o ponto de vista administrativo se compõe de alguns povoados pequenos agrupados em duas freguesias nomi-nativas - S. Pedro e S. Miguel - nenhuma delas sendo sede própria. Vive apenas da tradição. Mas outro tanto não sucede com a sua enorme riqueza agrícola - cada vez mais e a tal ponto que a região do Jarmelo outrora circunscrita a uma reduzida periferia, se ampliou por uma vasta zona do distrito da Guarda, constituindo hoje uma vastíssima região etúrica perfeitamente diferenciada do resto do país com características tão vincadas que a tornam "sui generis". | |
Os seus habitantes distinguem-se notavelmente de outros que residem no mesmo concelho. E não só pelo vocabulário usado pela gente rústica, mas também pelo vestuário e pelos costumes populares, em tudo eles são mais arcaicos e tradicionais que nós outros, nados e criados nas encostas da Estrela ou nos vales do Zêzere e do Mondego, incluindo o sulco da Teixeira e o amplo jardim do Seixo e Gonçalo.De norte a sul desde o Cabeço da Lameira Velha em Vila Franca do Deão, passando no picoto Tins e Tintinolho, até além de Benespera a linha férrea separa os dois grupos etúricos coincidindo tal divisória com as diferenciações do clima, formas e espécies do terreno, cuja influência se reflete naturalmente na fauna e na flora concelhias. |  | No Jarmelo cultivam-se afanosamente as indústrias agrícolas e pecuária, ferraria, tecelagem, lacticínios e em grande escala o comér-cio de gado de lã e vacum; a manteiga e o queijo são magníficos. |
| | A colheita de centeio, batata e legumes e´muito abundante. A saragoça e o burel, as mantas e os tapetes de cores vivas e bizarras são típicos. São dali oriundas as melhores raças portuguesas de gado bovino caprino e lanígero denominadas "Jarmelistas" além de apreciáveis exemplares de gado cavalar e muar, cuja criação tem tomado nos últimos anos notável incremento. A propriedade está de há séculos dividida; em regra todos os chefes de família são proprietários, havendo ali algumas apreciáveis fortunas. Os habitantes do Jarmelo são estruturalmente religiosos, obedientes portanto aos seus párocos e autoridades cívis. De espírito simples, bondosos e hospitaleiros são de toda a população da comarca da Guarda quem menos concorre para as estatísticas criminais. |
 | Ocupando um vastíssimo planalto rigorosamente frio ou excessivamente cálido destemperado com um clima essencialmente continental, os seus habitantes são activos, robustos, simples e resignados. A vida mantém-se normalmente aferrada a velhos costumes e a população consti-tuindo-se em bloco forte e unido para a defesa de um único objectivo político,social ou religioso firmeza e homogeneidade que lhes advém talvez da uniformidade topográfica, revela possuir todos os elementos basilares e essenciais inerentes à ideia de pátria. Enquanto que nós os de cá, insatisfeitos e rebeldes com menos religião e mais fobia política, guerrilhamos por índole e por sis-tema consoante a in-tensidade variável das correntes fluviais; ora mansas como lagos de jardim, ora brutais e impetuosas como ava-lanches apocalípticas. |
|