Vacas Jarmelistas
Depois mais tarde, comecei eu a comprar vacas, comprei uma dos Alecrins... e trabalhava com outra vaca que cá foi criada, filha dessa vaca cega.. essa vaca dos Alecrins, comprei-a cara... vendeu o Zeca uma por três contos e oitocentos e eu comprei a tal por seis...começaram todos a dizer que tinha sido cara.., que tinha custado muito dinheiro.... foi a melhor vaca que aí tive. Os alecrins tinham boas vacas, nós sabíamos onde é que estavam as melhores vacas de cada terra... logo na Donfins... o campeão das vacas era o "ti Mateus Grande" de agricultura não percebia muito, mas de vacas era um especialista.
Ás vezes iam a Trancoso para comprar uma vaca...e nunca lá comprei vaca nenhuma... porque não me agradavam...ás vezes lá aparecia uma de jeito... em regra apareciam umas vacas parecidas com as nossas de "amoito", eram de Garcia Joanes chamavam-lhes de "Gracijoanes" vinham a comprar aqui as vitelas ali para o Feital, Alverca ou Cerejo ou Bouça Cova e punham-nas a trabalhar logo de pequeninas.. aí com oito meses.. uma vez um ia-me a comprar uma e disse que era para pôr a trabalhar... logo lhe disse que não lha vendia... "atã" ia-lhe vender a bezerra para a pôr a trabalhar?.. e os lavradores iam lá buscar essas vitelas depois de criadas.
O meu pai sempre queria as vacas de qualidade.. tivemos cá essa marreca que tinha um traçado de...ai não me lembro.. não era de mirandês.. era parecido com mirandês. Chamava-se chaguês não sei donde provinha essa raça de vacas era corpulenta, mas não era muito leiteira... a vaca cega era filha da tal... foi a vaca melhor que cá tivemos.
Eu recordo-me, quem tinha vacas boas de leite.... o número um na Donfins, era o ti Mateus Monteiro ganhava os primeiros prémios das vacas jarmelistas, era ele ali no mercado dos Gagos. Na Donfins era o ti Mateus e o ti Elias.
No dia das Feiras havia lá mais de cem... mas só ganhava o prémio uma ou duas, estava a feira cheia da estrada até lá ao cimo, tavam presas umas ás outras e o lavrador ao pé delas... mas também podiam estar soltas,, nunca estavam sozinhas... logo as nossas vacas tinham aquele lugar... nós tínhamos quatro vacas ...era a mãe da cega, era a cega, a que comprámos aos Alecrins e a filha da cega... o ti Mateus também ficava ao pé de nós... tava o "Tónio Bernardo" tava lá mais pra cima... também tinha sempre boas vacas o "Tónio Bernardo".
Quando era mais novo, as vacas andavam todas de jugo e os carros eram de eixo de pau, eixo de pau fixo, fixo á roda , o eixo rodava tás a entender?... o eixo rodava .. o eixo é que rodava e primeiramente os carros cá chiavam os carros chiavam, havia alguns que lhe punham "caladeira", "coquetas" para não chiarem, mas chiar era brio... os lavradores trazerem os carro a chiar aqui na Ima, só cá havia que não chiassem o Zé Escaleira e ali o "ti Orfão" com as coquetas não chiava, era ferro na madeira, enquanto que chiar era madeira com madeira e quando escolhiam um eixo dum pau de freixo que não tivesse nós pra chiar melhor. Punha-se óleo para não chiar ou qualquer gordura. E as vacas eram quase todas de jugo aqui na Ima e em quase todo o Jarmelo.. depois começou-se a usar a canga, vários, o primeiro que comecei a ver usar a canga... foi o meu tio Mateus da Donfins, depois mais tarde o ti "Orfão" quando eu tinha 16 anos fui lavar pró canal, o meu pai não queria que lavrasse com a canga... e disse-me para pôr as vacas ao jugo, perguntei-lhe se ele queria lavar, ele respondeu que não... disse ó Mateus pra se pôr na frente das vacas e comecei a lavrar, ele lá esteve a espreitar a ver como é que as vacas nadavam.. mas nunca disse nada, foi na altura em que vendemos aquela vaca leiteira por um conto e cinquenta escudos para matar em 1937 a que foi por seis contos foi aí em 1951 ou coisa.
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